Prioridades para a saúde mental no Brasil: recomendações para a agenda pública
A saúde mental é uma das questões mais urgentes para o desenvolvimento sustentável, a democracia e a saúde pública na atualidade. Mais do que um tema restrito aos sistemas de saúde, ela influencia diretamente a capacidade das pessoas de aprender, trabalhar, construir vínculos, participar da vida comunitária e projetar o futuro. Nos últimos anos, organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e as Nações Unidas passaram a reforçar que não é possível discutir desenvolvimento humano, redução das desigualdades ou fortalecimento das democracias sem considerar a saúde mental como prioridade pública.
Na América Latina, esse cenário se torna ainda mais complexo diante de contextos marcados por desigualdade, violência, insegurança alimentar, instabilidade econômica, exclusão social e impactos crescentes das mudanças climáticas. Esses fatores afetam profundamente o bem-estar emocional da população, especialmente de crianças, adolescentes e jovens, que convivem diariamente com múltiplas vulnerabilidades e barreiras de acesso ao cuidado.
É dentro desse contexto que a Global Mental Health Action Network (GMHAN), principal rede global de incidência e ativismo em saúde mental, vem articulando diálogos, recomendações e análises sobre a realidade da saúde mental na América Latina, reunindo iniciativas e organizações de países como Peru, Colômbia e Brasil.
No Brasil, essa articulação acontece em parceria com o Vertentes Ecossistema de Saúde Mental, movimento intersetorial que atua para fortalecer uma cultura de cuidado em saúde mental baseada em evidências, direitos humanos, participação social e impacto coletivo. Como parte dessa colaboração, foi desenvolvido o documento “Prioridades para a saúde mental no Brasil e na América Latina: recomendações para a agenda pública”, que reúne evidências e recomendações voltadas às eleições de 2026 e à construção de políticas públicas estruturantes para o país.
O documento propõe que a saúde mental seja reconhecida como compromisso de Estado, direito humano e infraestrutura social para o desenvolvimento. Entre os principais temas abordados estão o fortalecimento do cuidado comunitário, o financiamento sustentável da saúde mental, a integração entre saúde mental e determinantes sociais, econômicos e ambientais, a priorização da saúde mental de crianças, adolescentes e jovens e o fortalecimento da participação social nos processos de construção de políticas públicas.
A iniciativa também se conecta diretamente ao projeto Incidência Política pela Saúde Mental, desenvolvido pelo Vertentes desde o início de 2026 com apoio da United for Global Mental Health. O projeto tem como objetivo incidir nos planos de governo de candidaturas estaduais e presidenciais, promovendo a inclusão da saúde mental como prioridade pública nos planos de governo das candidaturas.
Como parte desse processo, o Vertentes realizou uma Escuta Jovem com adolescentes e jovens de diferentes regiões do Brasil, criando espaços de participação e escuta qualificada para compreender desafios, demandas e percepções relacionados à saúde mental. Além disso, o projeto prevê a elaboração de um policy brief técnico e de uma pesquisa aprofundada que irão subsidiar recomendações concretas para candidaturas, gestores públicos e tomadores de decisão.
A proposta parte do entendimento de que saúde mental é um tema transversal. Ela está diretamente conectada ao financiamento público, à educação, à assistência social, aos direitos humanos, à cultura, à participação social, ao combate às desigualdades e à crise climática. Por isso, fortalecer a saúde mental exige articulação intersetorial, políticas públicas sustentáveis e compromisso contínuo com a construção de respostas coletivas e territorializadas.
Além de ampliar o debate público, a colaboração entre Vertentes e GMHAN busca fortalecer a agenda de saúde mental na América Latina e transformar evidências, escuta social e participação cidadã em compromissos concretos de governo. Porque saúde mental não se resolve apenas no consultório. Ela também se constrói nas políticas públicas, nos territórios e nas decisões que moldam o futuro da sociedade. Para saber mais sobre o projeto Incidência Política pela Saúde Mental e acompanhar as iniciativas do Vertentes, acesse o site da organização: vertentes.org
Este documento foi desenvolvido entre os meses de março e abril de 2026 pela equipe do Vertentes Ecossistema de Saúde Mental, Luiz Roberto Carvalho (Soulbeegood and Vertentes), Camila Kneip, Dayana Moraes e Fátima Viscarra com contribuições de Lucero Andaluz Llerena (De-Mentes, Peru), com contribuições de Carolina Díaz Pimentel (Coalición Neurodivergente Peruana), e Viviana Garzón (Mixera FUND, Colômbia), ativistas latino-americanos membros da Rede Global de Ação em Saúde Mental (GMHAN), com o apoio de Antonis Kousoulis e Divya Sharma, integrantes da Secretaria da Rede.